domingo, 20 de outubro de 2013

O (RE)NASCER DE UMA HEROÍNA

Ao bisbilhotar os jornais na web antes de começar mais um dia de trabalho, saltou-me um titulo entre muitos:  "Atleta portuguesa com diabetes participa em maratona nos Estados Unidos"
 
Fiquei logo entusiasmado em saber mais sobre o assunto, por ser "corredor de pelotão" e por conviver de muito perto com esta doença.
 
Tive a oportunidade (e o descaramento) de formular, a esta heroína nacional umas questões, de modo a divulgar o seu feito, e de encorajar muitos outros "doentes" a encontrarem superação no desporto... e  fui bem sucedido :) Leiam e inspirem-se
 
QKMST. Quem é Ana Luísa Vaz ?
 
ANA. Ola, o meu nome é Ana Luísa, tenho 26anos e sou natural de Évora. Sou enfermeira, trabalho na Lilly com programas educacionais na área Diabetes. Sou uma jovem como tantas outras, atleta dizem, e diabética tipo 1 há 15anos.
 
 
 

QKMST. Sabemos que foi-te diagnosticado diabetes aos 11 anos de idade. Como era a tua vida antes do diagnostico e como encaraste a doença com tão pouca idade para "sofrer"?
 
Ser pré-adolescente tem os seus quês, com 11 anos internaram-me depois de me dizerem com um sorriso : Ana, estas assim porque tens diabetes. Mas não te preocupes existem imensos jovens como tu e fazem coisas incríveis! Entre a incredibilidade e negação o tempo foi passando, até entender que não ia passar e tinha que ser assim. Quando me perguntam se aceitei bem a doença digo sempre que sim, e é verdade. Aceitei no sentido de encarar como algo que tinha de ser feiro, que era da minha responsabilidade e como tal, bem cedo cresci. Aliás cresci bem mais rápido que todos os outros. O que mudou?!ter consciência no que se come, fazer insulina, lidar com os valores de glicémia, fazer contas, partilhar responsabilidades de que aquilo que fazemos tem uma consequência e como tal pensar sempre na consequência dos meus atos. E por favor não encarem isso como algo negativo.
 
QKMST. Como nasceu o gosto pelo desporto, e neste caso especial pelo atletismo de fundo?
 
ANA. O gosto pela corrida surgiu há relativamente pouco tempo, o desporto sempre fez parte do meu dia-a-dia. Há quatro anos comecei a correr, primeiro 15 min, meia hora, uma hora, 10km, meias maratonas e o entusiasmo não parava. Comecei a correr diariamente a sentir-me motivada para me superar e por isso estabeleci o objetivo de em 2013 juntamente com o meu parceiro de corrida(namorado) acabar uma maratona. Acabei por fazer não uma, mas duas este ano!

QKMST. Correr uma maratona para um "comum mortal" já é um esforço tremendo (ainda esta latente na memoria o tremendo empeno da minha 1ª maratona). Como é correr uma maratona com um "bichinho" chamado diabetes agarrado ao corpo?
 
ANA. A corrida é um exercício exigente, mas mais do que preparação física necessita muito de uma grande capacidade mental de resistência e resiliência. Para um diabético tipo 1 o exercício deve ser pilar do controlo da doença, contudo é importante que o jovem conheça bem a doença, e compreenda o impacto do exercício na mesma. Em qualquer tipo de exercício a pessoa com diabetes deverá ter em conta os seguintes aspetos: glicémia, dose de insulina, e ingestão de hidratos de carbono. Estes aspetos devem ser trabalhos junto da equipa de saúde que o acompanha para que a pratica de exercício seja um momento de prazer e de melhoria da qualidade de vida. Da pratica de exercício para a própria maratona existe aqui toda uma aprendizagem sobre a doença e sobre o seu controlo. Tendo em conta a duração da prova, é importante que a pessoa estabeleça objetivos glicémicos antes, durante e depois da mesma para que a prova seja o mais controlada possível. Ao longo da maratona existe a necessidade de comer(gel, barras, sumos, bebidas isotónicas) fazer reposição de hidrato de carbono para que não surjam hipoglicemias e claro fazer insulina.

QKMST. Com certeza deves ter amigos corredores que treinam contigo. Em que difere a tua preparação para um treino ou corrida em comparação com eles?
 
ANA. Correr e ser diabética tem todas as particularidades que já referi anteriormente. Contudo corro tão bem ou melhor que outros jovens. Os meus treinos são realizados com o meu namorado ( que não e diabético) e são orientados por um professor (que pouco ou nada percebe de diabetes). Claro que comigo é diferente, tenho de ter atenção inúmeros fatores que os outros não tem, tenho de estar sempre alerta, despistar qualquer sinal de hipoglicemia, de comer mesmo quando não quero ou até mesmo parar quando é necessário. Tudo o resto passa da mesma forma, a preparação para as provas requer esforço, dedicação e empenho....tal como qualquer atleta.
 
QKMST. Sentes-te "inferiorizada" pelo facto de teres diabetes ou, por outro lado, dá-te mais prazer ultrapassares desafios como este com uma "desvantagem" mesmo antes de começar?
 
ANA. Não sinto qualquer desvantagem. Corro porque gosto e porque me sinto realizada, não sinto que a Diabetes me tenha subvalorizado em nada.

QKMST. A Maratona Medtronic Global Heroes é uma prova para atletas portadores de dispositivos médicos para colmatar problemas de doenças cronicas. Fala-nos desse teu dispositivo, melhorou a tua qualidade de vida?
 
ANA. Tenho uma bomba de insulina há quatro anos .A bomba de insulina ajudou-me muito a personalizar tratamento da doença, conseguindo melhorar os meus valores de hbgA1c (Hemoglobina Glicosilada), mas principalmente ajudou-me a adaptar o tratamento ao meus estilo de vida, dando maior liberdade, ajudando-me no dia-a-dia.
 
QKMST. Numa frase descreve a tua experiência na Medtronic Global Heroes?
 
ANA. Esta iniciativa pretende reconhecer que existem heróis que apesar da sua condição crónica não desistem dos seus sonhos. E este reconhecimento como uma heroína foi importante para mim pois é gratificante poder mostrar aos pais, aos jovens e crianças que eu não devem parar de seguir os seus sonhos, de a acreditar em si e se superar.

QKMST. Qual foi a sensação de cruzar a meta após 42,195 km e 3h32min?
 
ANA. Esta prova foi repleta de emoções, os 42,195 km são o colmatar desse mesmo sentimento. Ao longo da prova e por estar devidamente identificada, senti muito apoio por parte das pessoas e dos próprios atletas com quem me cruzei. Acho que é indescritível tudo que se sente durante a corrida. A nível pessoal senti-me muito feliz por ter terminado mais uma maratona e também por ter conseguido bater o meu recorde pessoal, ganhando cerca de 10 min da maratona anterior.
 
QKMST. Podes dar alguns conselhos aos milhares de doentes crónicos portugueses que se refugiam na doença para deixar passar experiências inesquecíveis que só o desporto nos pode dar?

ANA.  A mensagem que gostaria de passar é a mesma que me foi passada pouco depois do meu diagnóstico, a doença não nos impede de perseguir os nossos sonhos. O importante realmente é aprendermos ao longo da vida como podemos concretiza-los e principalmente acreditarmos em nos mesmos, não desistir...porque afinal os heróis são comuns mortais que continuam perante as adversidade. A diabetes tal como a vida é uma constante aprendizagem e é fundamental que nos recriemos todos os dias.
 
QKMST. Quantos kms tens Ana, e quantos mais tencionas fazer?
 
ANA. Quantos klm, muitosss :)) o objetivo será uma maratona por ano, Paris será a próxima e quem sabe mais tarde (talvez) uma ultra.
 
 
Obrigado Ana, e boas corridas!!!

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